terça-feira, 14 de setembro de 2010

1. Introdução

Este trabalho tem o intuito de apresentar uma análise moral diante das concepções filosóficas existencialistas de Sartre. Essa análise irá se basear na leitura do livro “Le Mur” (O Muro), uma coletânea de cinco contos diversos em tamanho e tema. Cada um consiste nas suas peculiaridades com seus próprios personagens sem ter uma relação direta com os outros.
O objetivo dessa análise moral a corrente existencialista, seja um aprofundamento do mundo de Sartre que podemos considerar para alguns extremistas e seguidores dessa filosofia, egocêntricos. A análise do livro consiste em uma leitura detalhada de cada um dos contos e com isso avaliar a moral na ação dos personagens no decorrer da história e na concepção da história.
Os envolventes contornos da moral em qualquer época são maleáveis as ações da sociedade e os personagens poderão ter sido considerados mundanos naquela época e comuns a atual (a publicação do livro foi em 1939).
Assim, com esta análise dos contos e de sua moral, escrevemos um trabalho procurando salientar essencialmente sua moral e nos comprometendo a explicar a moral de cara personagem presente em cada conto da coletânea “Le Mur” (O Muro).
Vamos apresentar no trabalho também de forma contundente a obra de Sartre e sua corrente filosófica existencialista. É muito importante entendermos sua concepção reflexiva social para que consigamos enxergar o objetivo da autoria e criação dos contos. Os contos se relacionam diretamente com seus pensamentos existencialistas, trabalhando a reflexão do ato de decidir e a caracterização do homem no momento que decidi algo, a caracterização de sua existência.
Examinaremos a vida e obra de Sartre o que nós deixará a par do contexto social, filosófico do livro, nos trazendo um melhor entendimento da sua obra e nos cedendo uma breve luz a relação da moral com os personagens, atiçando nossas mentes e ajudando-nos a questionar mais e refletirmos melhor sobre o que lemos.
E após todo esse processo de entendimento geral, chegaremos ao específico e tentaremos trazer a todos o melhor compreendimento do objetivo do nosso trabalho.





2. Sartre, existencialismo e seu desmembramento

Após a Segunda Guerra Mundial, uma corrente filosófica surgia-se diante da confusão que estava projetada no mundo. O indivíduo começava a trazer pensamentos nos quais se ausentavam das concepções que naquele momento eram atuais e padronizadas diante do comportamento humano. Surgia-se o existencialismo: a mais imponderada descrição da liberdade de ação do ser humano. O existencialismo se caracteriza pelo descrever da essência humana, um descrever sobre a sua origem, sua essência, no qual procura afirmar de que o qualquer ser humano é dono de seu destino.

Uma corrente filosófica que foi muitas vezes criticada pelo seu ateísmo exacerbado, pois apresentava de que o ser tinha controle de sua existência e apenas ele poderia construí-lo, anulando-se todos os outros fatores que a muito tempo foram sobrepostos sobre a sociedade, como pelo fato de que Deus era o criador de seu caminho. O existencialismo era a quebra dos valores, dos pensamentos dos homens em relação a suas vidas. Quem seguisse tais pensamentos poderia ocorrer uma mudança de comportamentos suscetível a intenção de que tem a liberdade de criar sua própria história.

O existencialismo é baseado na sua idéia de liberdade e projeto de ser humano. O homem é livre, mesmo que ele não queira optar, ele está sempre optando e esta é a característica central do homem. A natureza humana não tem essência, a natureza humana é caracterizada pela sua existência. E na concepção de um dos grandes filósofos percussores do existencialismo, Sartre, existência é optar. Não há possibilidade de caracterizar o homem senão pela sua capacidade de optar e pelo fato de que optando ele opta não só por ele e individualmente, mas por toda humanidade. E cada alternativa, uma delas sendo realizada é a projeção do homem no mundo. Não importa no existencialismo qual é a opção, importa que uma delas vai ser tomada e vai ser uma alternativa para o homem e um caminho do homem no mundo. Assim, toda a humanidade, junto com aquele homem, terá aquele caminho aberto. A capacidade de abrir caminhos e traçar a sua própria história, a sua própria existência é o que caracteriza o homem o que não se pode considerar a essência. A essência humana que Sartre defende ela é dada antes da execução de uma das possibilidades. Um caminho sendo executado por um homem abre portas para que qualquer outro indivíduo possa executar este mesmo caminho. Então isto de abrir caminhos, uma vez executado, esses caminhos executados compõe o que homem é, que podem ser, ou seja, um ser condenado a optar e a humanidade toda opta com ele. O homem não é um ser essencialmente de existência, ele é um ser que é caracterizado pela existência. Sartre com o existencialismo dota o homem com propriedades e características anteriores as opções que ele faz no plano histórico, no plano que ele efetivamente vive.


Jean Paul Sartre, um dos primeiros percussores do existencialismo junto com sua companheira, Simone de Beauvoir, escreveu vários livros tratando-se dessa corrente filosófica. Nascido em Paris no ano de 1905, a vida de Sartre é de uma turbulência comum como a maioria de muitas outras. Seu pai falece e sua mãe procura sobreviver ao meio que vivia. Mais tarde ela casa e muda-se para a casa do padrasto de Sartre. Posteriormente ele tem uma passagem no exército e também é listado para prestar serviço militar na Segunda Guerra Mundial. Foi durante este período de que Sartre começou a escrever seus livros. O primeiro livro dele foi escrito antes da Segunda Guerra e enquanto ele prestava seu serviço militar. Chamava-se Factum sur la contingeance (Panfleto sobre contigência) que depois viria a se chamar La Nausée (A Náusea). Posteriormente, constrói obras como: L'Imagination (A Imaginação), L'Imaginaire (O Imaginário), Esquisse d'une théorie des émotions (Esboço de uma teoria das emoções), e o seu mais importante livro filosófico, L'Être et le Néant (O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica). Demonstra-se um grande estudioso de filósofos como: Bergson, Kant, Descartes e Spinoza.

É de se apreciar de que a filosofia de Sartre foi tirada provavelmente de sua vida. Com um breve estudo de sua vida, ainda é mais fascinante por examinar uma vida relativamente comum. Seus pensamentos relacionados aos seus estudos e a sua experiência de vida formou o existencialismo de forma intrínseca com o sentimento humano. Ele trata a vida como uma oportunidade e uma barreira de escolhas no qual o indivíduo tem a vantagem, o dom de poder escolher de forma simplesmente egocêntrica - felizmente falando - sobre sua vida. Para os ateístas, é a filosofia mais bem servida para seus pensamentos opostos a religião e forças maiores; a força que está presente, é o poder da escolha.

Vale ressaltar que nas obras de Sartre, em um determinado momento ele começou a se tornar anti-burguês, dizem, a partir do momento que ele se muda com sua mãe para a cidade de qual pertencia o seu padrasto onde entrou em contato com árabes, negros e comerciantes. Salvo engano, a cidade era La Rochelle - uma importante comuna francesa na região de Poitou-Charentes no oeste da frança - em que mais tarde reconheceria esse período como a raiz do seu anticolonialismo e o início do abandono dos valores burgueses.

Sartre sempre foi um filósofo no qual recebia críticas vindo de praticamente todas as direções. Seus pensamentos eram julgados por comunistas, religiosos - vindo, essas críticas, principalmente dos católicos - e alguns outros tipos de pensamentos que não se adequaram ao pensamentos existencialista. Pode-se se dizer que a moral em Sartre foi sempre questionável, seus livros abordavam assuntos com situações peculiares. Na verdade, o excesso de críticas fez com que ele escrevesse L’Existentialisme est un Humanisme (Existencialismo é um Humanismo) como uma resposta sobre todas esses julgamentos:

“Gostaria aqui de defender, aqui, o existencialismo de uma série de críticas que lhe foram feitas.
Em primeiro lugar, acusaram-no de incitar as pessoas a permanecerem no imobilismo do desespero; todos os caminhos estamos vedados, seria necessário concluir que a ação é totalmente impossível neste mundo; tal consideração desembocaria, portanto, numa filosofia contemplativa - o que, aliás, nos reconduz a uma filosofia burguesa, visto que a contemplação é um luxo. São estas, fundamentalmente a crítica dos comunistas.
Por outro lado, acusaram-no de enfatizar a ignomínia humana, de sublinhar o sórdido, o equívoco, o viscoso, e de negligenciar certo número de belezas radiosas, o lado luminoso da natureza humana; por exemplo, segundo a senhorita Mercier, crítica católica, esquecemos o sorriso da criança. Uns e outros nos acusam de haver negado a solidariedade humana, de considerar que o homem vive isolado; segundo comunistas, isso se deve, em grande parte, ao fato de nós partirmos da pura subjetividade, ou seja, do penso cartesiano, ou seja ainda, do momento em que o homem apreende em sua solidão - o que me tornaria incapaz de retornar, em seguida, à solidariedade com os homens que existem fora de mim e que eu não posso alcançar no cogito.
Na perspectiva cristã, somos acusados de negar a realidade e a seriedade dos empreendimentos humanos, já que, suprindo os mandamentos de Deus e os valores inscritos na eternidade, resta apenas a pura gratuidade; cada qual pode fazer o que quiser, sendo incapaz, a partir de seu ponto de vista, de condenar os pontos de vistas alheios.”

Muitos dizem, já que Sartre afirma que estamos condenados a sermos livres, então a liberdade não existe. Mas a liberdade em Sartre é a liberdade efetiva, não é o sonho pela liberdade, é a liberdade quando se opta, quando uma opção é realizada. Então no momento em que se faz a liberdade acontecer, no momento da opção, projeta-se uma das opções humanas no mundo. Aquilo que é feito fica marcado como aquilo de que algum homem o fez e portanto toda a humanidade o fez, assim se torna um caminho a mais diante de todos os outros. No pensamento de Sartre: eu opto e pago o preço por esta opção e ninguém mais pode optar por mim.
Se formos analisar, as críticas recebidas de Sartre sobre a mais pura liberdade relacionada a existência do homem, opõe-se a maioria das ideologias formuladas na atualidade do século XX. Os comunistas precisavam da liberdade limitada de seus compatriotas para que houvessem o controle que gostariam de obter do comunismo, assim, se opondo as concepções da liberdade existencialista de Sartre. Os católicos, no qual enquadravam seus fiéis nos seus comportamentos religiosos acabavam por também se opor as concepções filosóficas do filósofo.
Essa condenação à liberdade existencialista e de que o homem é condenado a liberdade ou de que, nada tem a não ser liberdade de escolha é, resumidamente os raciocínios mais utilizados no aspecto de questionar, analisar ou examinar a corrente filosófica de Sartre.
Mas, não se deve negar a brilhante idéia e concepção deste filósofo contemporâneo. A análise do comportamento humano diante de sua existência definida pelas suas escolhas diante das oportunidades na sua vida traz, com peculiaridade, uma filosofia psicológica e que engloba todas as ações de um único homem e as ações da humanidade. Simplesmente procura emoldurar as atitudes humanas como características para se afirmar a sua existência e de que essas atitudes implicam no que podem compadecer posteriormente, ou seja, as conseqüências de tal. E a partir desta experiência realizada, todos podem observar aquele caminho com a noção da probabilidade daquilo que se pode acontecer diante da opção.
Sartre foi um percussor de uma filosofia que poderia ser considerada egocêntrica e por ter sido muito difundida de forma equivocada, sem o devido estudo, pode ter servido de influência muito negativista como ele comenta que:
“Contaram-me, recentemente, o caso de uma senhora que, tendo deixado escapar, por nervosismo, uma palavra vulgar, se desculpou dizendo:’Acho que estou ficando existencialismo’.”

A análise inadequada a uma concepção nítida que por alguns, julgado de forma naturalista, na verdade deve-se compreender que o aspecto existencialista procura afirmar do que o homem é feito e de que entre os seus caminhos seguidos conseguem abordar sua personalidade humana, não no sentido mais pessoal, caracterizando especificamente um indivíduo, mas no sentido de caracterização do ser humano, o humano no qual compõe a humanidade.
É a partir desse ponto que vem o projeto de homem. Cada opção de caminho cria um projeto de homem, pensando-se no fato de que o existencialismo está presente no momento em que a opção está sendo feita e não no que vem depois da opção, ou a conseqüência da opção. É no momento que ela está sendo feita que surge existencialismo, caracterizando a humanidade e todos os homens diante das opções que são feitas a todo o momento.

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